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CHICO BUARQUE É CHATO PRA CARALHO

CHICO BUARQUE É CHATO PRA CARALHO

Uma vez alguém ficou meia hora me falando dos benefícios do espinafre. De como ele está cheio de fibras, flavonoides (são bons para prevenção do câncer), vitamina C, vitamina E e mais uma porção de coisas maravilhosas que fazem bem pra saúde. “Que beleza!”, exclamei. Daí não resisti. Entusiasmado, dei uma boa garfada num bocado de espinafre. E cuspi tudo fora no mesmo instante. “Argh! Que coisa horrível! Mesmo com toda essa defesa teórica, IT STILL TASTES LIKE SHIT!!

Com o Chico Buarque, ocorre algo semelhante. Ao longo dos anos, vários amigos meus (músicos ou não) já tentaram me convencer das virtudes do gênio da MPB. “Ele consegue expressar o eu lírico como se fosse mulher, que poesia, que acordes, que sensibilidade!” E ainda: “Ele combateu a ditadura militar, foi censurado, tinha que compor com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, ele é gato (e eu com isso?), ele é foda!” Etc. etc.etc. OK. Lá vou eu ouvir Chico Buarque: e o que acontece? IT STILL SOUNDS LIKE CRAP!! (“O som continua sendo uma bosta!” – traduzido por Bing).

Obrigatório é mastigar de boca fechada

Chico Buarque é muito bom pra quem gosta, mas com certeza não é “obrigatório”. Dizer isso pra mim é a morte da cultura, porque só faz criar clones ou papagaios pseudo- intelectuais repetindo o consenso sobre determinado artista. Ninguém tem coragem de ir contra pra não passar por insensível ou burro. E é aí que tá a burrice. Prefiro mil vezes um fã sincero de Ivete Sangalo (que também detesto) do que dez mil pessoas recitando frases feitas da mesma cartilha que idolatra o Chico Buarque.

A vida é muito curta pra gente fingir que gosta do que não gosta pra impressionar os outros. Acho que foi Jorge Luis Borges quem disse isso. Se não disse, estou dizendo agora.

“Bom gosto” não existe 

É evidente que tem gente que ama mesmo o Chico e isso é nítido até no tom de voz quando a pessoa fala dele. Que legal. Isso é ótimo. O erro é tentar catequizar os outros. “Bom gosto” é fascismo cultural. Imposição. É detestável. Meu Deus, estou há mais de 40 anos tentando aprimorar MEU gosto e nego ainda me vem com essa de “bom” gosto?

“Ah, o autor deve estar falando isso porque é metido a roqueiro, deve gostar de Nirvana e Soundgarden, aquelas merdas grunge, de Seattle, pensará você. É verdade. Gosto mesmo. Mas também gosto de Chet Baker, de Duke Ellington, de Ella Fitzgerald, de Miles Davis, de Django Reinhardt, etc. Vocês vejam como é complexa a vida e como é amplo o espectro da sensibilidade humana e da musicalidade. Seria eu roqueiro tosco barulhento ou um sensível apreciador de jazz? R.: Os dois. E ouço muito mais coisa que não cabe citar aqui.

Se é tão bom, por que eu não gosto? 

Mas por que não gosto das músicas do Chico, meu Deus, por quê? Não sei. Millôr Fernandes, que era genial, não esclareceu o mistério, mas o reconheceu com clareza: “existem grandes obras que não nos falam ao pau.” É isso aí. Há uma dimensão da cultura que é visceral, quase táctil, reação que vem do âmago ou das catacumbas de nossa alma, sei lá. É o que levanta o pau metaforicamente falando, cacete. A via do intelecto até explica a paixão pela Arte. Depois que ela acontece. A explicação não substitui enlevo, o tesão, a fruição – nem sei como chama essa merda. Aquele negócio que fazia a gente ouvir o vinil até gastar quando eu era moleque. Aquilo!

O que ouvir? 

Na dúvida, siga seu coração. Ou pau, ou buuceta, whatever. Na vida profissional, financeira e etc., já temos que tomar muitas decisões sensatas e chatas, não é mesmo? Somos todos adultos e gostamos de fazer refeições todo dia, de pagar o seguro médico, de dormir sob um teto, etc. Isso implica muito mais em ser racional do que em ”seguir seu coração”, que é coisa inventada por filmes de Walt Disney e perpetuada por Clarice Lispector, mas que, na real, quase nunca rola.

Mas Arte (Espera… Arte ou entretenimento? Essa questão milenar será assunto para outro texto) é terreno do delírio, da fantasia, da liberdade. Na hora de ouvir música, o bom é gostar do que a gente realmente gosta. Mesmo que os outros achem uma merda. E não gostar do que a gente não gosta. Parece simples, óbvio até? Tente colocar isso em prática e agir assim no seu círculo de amizades. Principalmente se você for jovem (jovem costuma sentir muito mais pressão no sentido de ouvir isso ou aquilo). Tente ir contra o consenso da sua galera. Depois que tentar, deixe seu comentário aí embaixo. Os melhores ganharão um CD. Do Chico Buarque, é claro.

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Luiz Marcondes
Publicitário, escritor e editor do site Refinados Cavalheiros.

4 comentários

  • Adorei este texto. Tem muito “metido a intelectual” se dizendo fã de Chico Buarque só pq já é “preconizado” por outros pseudo-intelectuais que “gente que pensa tem,necessariamente, que gostar de Chico”. Tem gente realmente inteligente que gosta dele ? Claro! Mas o fato de eu não gostar ( nåo politicamente, mas musicalmente mesmo ) nãome faz menor. E pronto. Acho Chico Buarque bem chato SIM, mas amo Elis Regina, por exemplo…. Não é questão de ser “burro” ou ” inteligente” ….é apenas questão de gosto. Não sou obrigada a gostar de nutella pq todo mundo gosta, aliás, odeio nutella 😩

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  • O texto é ótimo, é cru, é direto! Identifiquei-me com cada parágrafo! Deixo de antemão muita risada!

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  • Eu gosto do seu Francisco. Acho muito boas as músicas, arranjos e tudo que já ouvi dele, com altos e baixos. Mas concordo que a idolatria e a punhetação em cima do nome dos “medalhões”, que nem precisam ser consagrados, basta serem os novos queridinhos, tipo Marcelos Camelos da vida, é um porre. E isso, em qualquer estilo musical. Haja vista o pessoal do metal discutindo quem é mais “troo” O Chico entendia mais da “alma feminina”, mas quem entendia mais de comer mulher era o Vinícius mesmo. Se meu comentário for considerado o melhor, pode mandar o cd do Francisco pra minha casa que eu aceito.

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