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Breve Guia de Bandas Hipster

Breve Guia de Bandas Hipster

Ser hipster é difícil. Dá trabalho. Além dos cuidados com a barba, no caso dos rapazes, ou com o cabelo milimetricamente desarrumado, pra dar aquele ar de que não liga pra aparência, no caso das moças, é preciso acompanhar as novidades sem parar. Sem parar? É, meu caro: sem parar. Ser hipster é se atualizar mais do que o Java no seu computador, ou seja, toda hora! É um trabalho 24 horas, a semana toda, nonstop. Mas calma. Se você tá entrando nessa agora, não vale a pena se desesperar. Não muito. Vou te ajudar.

Selecionei a seguir as bandas mais incríveis dos últimos tempos (ou seja, dos últimos 36 segundos).

É claro que quando você acabar de ler este texto, metade delas já terá ido pro mainstream ou desparecido completamente do mapa. Em ambos os casos, você terá que procurar outra novidade. Mas aí é problema seu (dá uma olhadinha na Hype Machine – hypem.com – quem sabe? #FicaADica)

Enfim, segue a lista. Não se preocupe com o fato de isto aqui ser um texto e não haver link pra música alguma! O som é o que menos importa numa banda hipster. É tudo questão de estilo. Mas disso acho que você já sabe.

PLAYING WITH DICK

Origem: South Wales County do Sul, Glucestershire (do Norte), País de Gales

Gravadora: No Records

Bio: Lester Balls era motorista de carro funerário (apenas um hobby, seu emprego de verdade era de vice-presidente da Microsoft) quando conheceu Layla Lips, uma jovem poetisa que parecia estar morta, mas era apenas gótica. Os dois logo começaram um tórrido romance que envolvia sessões de sadomasoquismo, palavras-cruzadas e composição musical. Mesmo sem saber tocar nenhum instrumento, nem cantar, o duo logo conquistou a atenção da crítica indie alternativa especializada. E também um público fiel de seis pessoas no quarteirão onde moravam. Isso tudo apesar do fato de Layla, responsável pelos backing vocals, ser muda.

Hoje PLAYING WITH DICK se destaca como uma da mais proeminentes apostas no cenário de “bandas-que-é-melhor-você-curtir-agora-pra-depois-poder-dizer-que-já-gostava-antes-de-virar-modinha” (como todo mundo sabe, dizer isso é o equivalente ao orgasmo pra um hipster).

Como é o som: Pós-pop-barroco com influências sombrias de bandas anos 80 como The Cure e the Never Heard About Them In My Fucking Life Before Atomic Band.

O que a crítica está dizendo: “PLAYING WITH DICK é a coisa mais sensacional desde a invenção do Starbucks” – Pitchfork

JOHNNY, THE TALKING LOBSTER

Origem: Shanghai e Oslo (não a da Noruega, mas a cidadezinha no estado de Ohio, EUA)

Gravadora: Como assim, gravadora? Gravam tudo no banheiro de casa e postam na internet

Bio: Ping Pen Pun conheceu Jason Jang num site sobre passeatas a favor do bacon vegetariano e logo descobriram que não tinham quase nada em comum e que seria impossível serem amigos.

Por isso mesmo,  decidiram formar uma banda utilizando samples de pinguins se acasalando, ukuleles e aros de bicicleta. Quando compartilharam o som no Soundcloud, ninguém deu a mínima, mas Johann Brass, uma paleontólogo desempregado, curtiu e resolveu se juntar a eles. Pun e Jang toparam, mas só porque o estúdio (ou seja, banheiro) de Brass era maior e cabia mais gente nele (no banheiro, não no Johann).

Em seguida, eles recrutaram um percussionista mexicano radicado em Uganda, Chico Loco, e lançaram seu segundo single, “Kiss my Koala”, que ficou em vigésimo quinto lugar numa parada tão obscura e alternativa que eu não posso nem dizer qual é, senão vou ter que te matar.

Como é o som: Suspiros melancólicos quase inaudíveis sobre loops sampleados de baleias, criando um clima depressivo e nostálgico com letras que falam de tragédias como um disco de vinil arranhado e café que chega frio à mesa. Tudo editado num iPad. E com muito, mas muito ukulele.

O que a crítica está dizendo: “Uma orgia sônica pirotécnica que vai destrambelhar seus sentidos e te fazer chorar e dançar ao mesmo tempo” – Stereogum 

EU NÃO TENHO TV

Origem: UK

Gravadora: Polychromic Pillhead

Bio: Calma! Apesar do nome, não é uma banda brasileira! (o que não seria nada hipster, né?) José Pereira, Joaquim Pereira (não são parentes) e Mané são expatriados de Moçambique que moram em Londres e compõem canções de protesto contra a globalização e a favor dos produtos Apple. (hein?). José no baixo, Joaquim na guitarra de 5 cordas (o Si arrebentou) e Mané no cello (que ele toca com baquetas feito bateria, pra obter um som doidão e inusitado). Seu produtor é o lendário DJ Brick, famoso por ser famoso. E por ter um Instagram bombado em que posta fotos de gatinhos. Ele também sempre é visto com um livro debaixo do braço, de preferência algo beat, como “On the road”, do Kerouac, o que lhe dá moral imensa na comunidade hipster (embora ninguém admita que é hipster, nem que exista uma comunidade).

Como é o som: Soa como um Banksy pichado com spray invisível na parede de um edifico que não existe. E está em chamas.

O que a crítica está dizendo: “Melhor que cupcake!” – Billboard 

hipster girl moça hipster

ARE WE NOT ROBOTS?

Origem: Nova Iorque

Gravadora: Bandido Records

Bio: As integrantes do ARE WE NOT ROBOTS? faziam Art School juntas e entraram debochadamente num concurso hipsters de bigodes sarcásticos para homens e, ironicamente, mesmo sendo meninas, venceram. Elas resolveram comemorar fazendo um som despretensioso, mas logo racharam de rir com essa ideia, porque se tem uma coisa que banda hipster não é, é “despretensiosa”.  Quando o acesso de riso passou, as 4 montaram  o grupo e, apesar de todas tocarem o mesmo instrumento, baixo, deu certo.

Essa formação inusitada atraiu a atenção da crítica especializada e do corpo de bombeiros, que foi chamado pra ver porque o prédio tremia tanto. Seu conceito musical inovador, desafiando todos os padrões estéticos convencionais, principalmente as noções burguesas de “notas musicais” e “ritmo”, tornou o ROBOTS uma das melhores bandas que surgiram no underground ontem à tarde.

Elas também gostam de tirar fotos desfocadas com máquinas “com filme de verdade mesmo, vintage, old school, cara” e alegam que essas imagens discutem a relação filosófica da música com o estético enquanto expressão viva do contemporâneo. O som da máquina clicando é incorporado às suas apresentações ao vivo, que costumam acontecer num porão em Williamsburg, Brooklin (capital hipster da humanidade).

Como é o som: Pós-rock-electro nouvelle vague com pitadas de nouvelle cuisine e canela.

O que a crítica está dizendo: “Um caldeirão eclético de influências tão obscuras que nem a gente conseguiu localizar. Deve ser muito bom!” – Rolling Stone  

Shakespeare também é Rap! Você sabia? Clica!

Luiz Marcondes
Publicitário, escritor e editor do site Refinados Cavalheiros.

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