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Futebol arte

Futebol arte

Leôncio é um rapaz magro e tímido, de 19 anos. Também é asmático. E mora com a mãe no subúrbio. Leôncio tem poucos amigos. Quase nenhum. Mas tem uma paixão: o futebol. Não como jogador, que ele não tem fôlego pra isso, mas como torcedor fanático pelo seu time do coração, o Esporte Clube Gaivotas do Noroeste. Gostar de futebol é hábito estranho. Pelo menos neste mundo em que Leôncio vive. Aqui só se fala em poesia. É isso mesmo: poesia, meu chapa. Aqui todo macho, criança ou adulto, não importa a cor ou credo, compartilha dessa paixão viril pela rima, sempre acompanhada de muita cerveja, gritos e pancadaria.

É um mundo às avessas, meu amigo. Tá tudo ao contrário. O pobre Leôncio, esse ser obscuro e apagado, tem que se esgueirar clandestinamente até os campinhos mequetrefes das várzea, onde assiste, embevecido, a peladas, atividade que os homens em geral consideram desprezível ou “coisa de mulher”. É um mundo estranho, este. Leôncio simplesmente não entende como alguém pode ter tão pouca sensibilidade a ponto de preferir um pentâmetro iâmbico a um gol de placa…! E sente náuseas.
Em casa, sozinho, assiste repetidas vezes aos VHS das melhores partidas disputadas para torcidas minúsculas de 30 ou 40 malucos como ele. Em êxtase. Leôncio tem até um caderninho no qual traça, com ar sonhador, esquemas táticos invencíveis, suspirando… Ah, se o pessoal da repartição pública onde trabalha o visse agora! Leôncio viraria motivo de chacota na certa. Gente mais grosseira… Insensíveis! Sempre com seus livrinhos debaixo do braço, prontos para falar em Fernando Pessoa ou Rainer Maria Rilke, como se isso fosse mais importante do que o nobre esporte bretão, como se um soneto de Vinícius de Moraes valesse uma boa pelada, “Pois não vale sequer uma MÁ pelada”, pensa Leôncio, dando de ombros e se isolando cada vez mais em seu mundinho de fantasias futebolísticas, no qual por vezes se imagina como um grande goleiro ou um artilheiro implacável.

Na hora do almoço é pior. Na hora do almoço o show de vulgaridade incomoda Leôncio tão profundamente que ele mal consegue comer…! É um tal de Yeats pra cá, Neruda, pra lá… Um mau gosto, um tédio… Meu Deus, Leôncio se pergunta, como é que pode existir gente tão cretina? Como pode alguém preferir gastar seu tempo falando de poesia quando poderia se atrever a desvendar os tormentos e paixões da alma humana, falando de futebol? Leôncio não entende nada…! E triste, mais uma vez, se cala.

E para aumentar sua angústia de rapaz sensível, há ainda Melissa, uma das telefonistas da repartição, por quem o pobre Leôncio está irremediavelmente apaixonado. Têm a mesma idade, os dois. E ela é tímida, também. As semelhanças, porém, terminam por aí. Melissa é linda. Lindíssima, apesar da pele mal cuidada. Tem olhos de um azul desmaiado e cabelos loiros de verdade (ao contrário da maioria das ”loiras” da repartição). Mas o que mais encanta Leôncio é o ar sonhador da moça… Esse ar meio ausente que o enche de esperança…! Sim, porque talvez ela, como ele, compreenda as sutilezas do futebol. Talvez um bom drible possa também levá-la às lágrimas e um gol, ao orgasmo…! Talvez ela também se sinta uma gauche que só se encontra de verdade ao vestir escondida a camiseta de seu pequeno time de várzea, sozinha, à noite, no quarto…
Leôncio suspira… E sonha.

Finalmente, toma coragem… E caminha até a mesa de Melissa. Vai conversar com ela. Mas eis que surge Jairo, dois anos mais velho que Leôncio e mil vezes mais belo. Forte, dentes perfeitos, um daqueles típicos sujeitos que parecem terem sido talhados para o sucesso – da mesma maneira que Leôncio foi feito para o fracasso. Pois Jairo vai direto até Melissa e tira do bolso um calhamaço todo amassado. Leôncio pára de repente no corredor, congelado, seu coração cansado já adivinhando o desfecho da história.
– É Coleridge – diz Jairo para Melissa, com ar de galã de filme vagabundo ? Você gosta?
– Ai, adoro ? suspira ela, mal disfarçando as faíscas de luxúria que saltam dos seus doces olhinhos.
– Eu sei, vi você com a camiseta dele outro dia ? afirma o facínora, na maior cara de pau. Ao que a vadia desalmada responde:
– Lá em casa é todo mundo louco por poesia, papai e meus dois irmãos mais velhos ? acabei pegando gosto, né? ? diz ela, sorrindo seu sorriso de vagabunda.

Naquela noite, Leôncio não dormirá. Em vez disso, passará a noite em claro em seu quarto, fazendo embaixadinhas e amaldiçoando o dia em que nasceu. E sonhando acordado, adentrará o próximo dia…
Sonhando sim, sempre sonhando, porque em algum lugar, longe daqui, deve haver uma outra realidade, um mundo melhor, um universo paralelo onde o futebol seja popular e encha estádios… E crie ídolos… E esses ídolos, mesmo que feios e dentuços, desposem as mais belas mulheres… Um mundo ideal, no qual a arte e a sensibilidade são valorizadas e esquisito e v*adinho é quem gosta de poesia! Ah, os grandes gramados, a bola rolando, estádios lotados, o urro das torcidas, partidas sendo transmitidas ao vivo para milhões de pessoas em todo mundo, camisetas coloridas, rivalidades, times…! Sim, sim, sim ! O grande gramado verde e a brancura imaculada da bola rolando, rolando, rolando…!
Leôncio suspira… E sonha.

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Written by RC

RC

Somos uma equipe de refinados cavalheiros versados nas mais diversas áreas do conhecimento humano, mas com algo em comum: nosso devotado estudo da alma feminina em todas as suas manifestações. Principalmente a física.

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